REVOLUÇÃO DE 1930

 
Um canhão, dois tiros e muita história
Armamento usado na guerrilha na divisa de Minas com Goiás foi fabricado em Uberlândia por Cesário Crosara
 
nica peça exposta no Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro que foi produzida em Uberlândia, o canhão “Emílio” foi decisivo em uma das últimas batalhas da Revolução de 1930, na divisa entre Minas Gerais e Goiás, na antiga ponte Afonso Pena. 

Na primeira reportagem da série “Uberlândia na Revolução de 1930”, que o CORREIO publicará nas edições de domingo, o personagem principal é um canhão fabricado em Uberlândia e que já rodou várias cidades antes de ser adicionado ao acervo do Pátio dos Canhões do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Fabricado na fundição da família Crosara, do patriarca e imigrante italiano radicado em Uberlândia, Cesário Crosara, na antiga rua da Estação, hoje avenida João Pessoa, o único canhão da tropa mineira na frente de batalha goiana foi um dos principais responsáveis pela rendição dos goianos em novembro de 1930. 


Às margens do rio Paranaíba, mineiros e goianos se confrontaram na Revolução de 1930. Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul apoiavam Getúlio Vargas na tentativa bem-sucedida de depor o presidente Washington Luís. O Triângulo Mineiro ficava entre dois estados inimigos, São Paulo e Goiás. As tropas voluntárias mineiras, em menor número, enfrentavam com espingardas winchester os soldados goianos, famosos pela excelente pontaria, e armados com fuzis. 


Mas dois tiros do canhão “Emílio” ajudaram a alterar essa desigualdade numérica e de arsenal no fronte de batalha no rio Paranaíba. “O primeiro tiro para acertar a mira atingiu a igreja de Itumbiara. Itumbiara chamava Santa Rita do Paranaíba e a igreja era de Santa Rita dos Impossíveis ou dos Milagres. O tiro derrubou uma das duas torres da igreja. E o segundo tiro acertou o cabo de aço da ponte pênsil. A ponte arriou e o pessoal de Goiás levantou bandeira branca”, disse o engenheiro Rugles Crosara, 77 anos, um dos sete filhos ainda vivos de Cesário Crosara
 
Engenhosidade italiana
Rugles Crosara é um dos sete filhos ainda
vivos de Cesário Crosara
 
O canhão “Emílio”, na verdade, era uma espécie de morteiro, fabricado com materiais improvisados e com a engenhosidade do italiano Cesário Crosara. Os Crosaras possuíam uma fundição e fábrica de máquinas e equipamentos para lavouras, montada em 1927, onde hoje é a avenida João Pessoa, em frente ao Terminal Central. 


“Meu pai morou comigo até morrer, eu tinha a curiosidade de sempre ficar perguntando sobre a fabricação do canhão. Nas avenidas de Uberlândia havia postes de aço. Eram mais grossos e depois afinavam. O poste para fabricar o morteiro foi retirado de um local em frente ao Colégio Estadual Ginásio Mineiro, onde hoje é o Museu,”, disse Rugles Crosara, que nasceria cerca de dois anos após o encerramento do conflito na divisa com Goiás.
 

O poste seria só o primeiro elemento improvisado para a construção do armamento. “O papai pegou um tubo de oxigênio, ele era agente da White Martins, serrou e colocou o tubo de aço dentro do outro e encheu de chumbo para fazer um lastro, porque senão, quando a bala saísse, o canhão poderia ser jogado para trás”, disse o filho do inventor. Como não havia chumbo ou estanho suficiente para ser inserido na culatra do canhão, o capitão José Percival, que comandava militarmente as tropas revolucionárias no Triângulo Mineiro, requisitou os metais das tipografias uberlandenses. 

Projéteis precisavam atravessar o rio

Antes de seguir de caminhão até a frente de batalha na ponte Afonso Pena, divisa de Minas Gerais com Goiás, na localidade ainda denominada de Alvorada, atualmente Araporã, o canhão “Emílio” foi testado em Uberlândia, na região onde hoje fica o bairro Roosevelt. 


Os testes serviam para verificar a pontaria e a capacidade de lançar as balas. O rio tinha cerca de 400 metros de largura e a distância entre os acampamentos goiano e mineiro era de aproximadamente 600 metros. 


Antes de Cesário Crosara construir o canhão, os militares pensaram em utilizar uma espécie de catapulta para atingir as tropas inimigas do outro lado do rio. “Eles queriam fazer uma atiradeira com pneu de trator, mas não alcançava esta distância (600 metros)”, disse Rugles Crosara. 
Um projétil disparado e 2 tiros ouvidos
 
Mariana Crosara, filha de Rugles Crosara,
em visita o acervo onde está o canhão do
avô
 
Uma das curiosidades do canhão “Emílio” contada pelo engenheiro Rugles Crosara, um dos filhos de Cesário Crosara, inventor do armamento, é que o canhão disparava um projétil, mas se escutavam dois tiros. “Os goianos ficavam impressionados. Porque todo canhão dá só um tiro, mas esse dava dois tiros, porque o primeiro era da pólvora que estava dentro para empurrar a dinamite”, disse Crosara. ”As balas foram feitas usando lata de soda, igual lata de leite em pó. Furava a tampa e colocava dinamite, em volta da latinha colocava grampo de cerca, prego, parafuso ou pedaço de chapa cortado para estilhaçar.” 


Rugles Crosara não sabe ao certo a razão de o canhão ter sido batizado como “Emílio”, mas tem um palpite. “O segundo filho do papai chamava-se Emílio Valentim.”

Peça passou por vários museus

Encerrada a Revolução de 1930, o canhão “Emílio” foi levado para Juiz Fora, na Zona da Mata, sede das forças revolucionárias em Minas Gerais. A história do armamento é cheia de idas e vindas. Segundo o livro “Araporã, Terra da Esperança”, da escritora Maria Honório de Castro, o canhão foi incorporado ao Museu de Belo Horizonte, depois ficou exposto por um período na entrada do Museu do Ipiranga, em São Paulo (SP), antes de ser anexado ao acervo do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro. No museu carioca, a peça foi registrada, inicialmente, como sendo oriunda de Juiz de Fora. 


Em 1997, com a ajuda de colaboradores, a origem do canhão foi revisada no registro do museu. No entanto, por um lapso na documentação apresentada, a autoria da peça foi atribuída ao filho de Cesário Crosara, Pacífico Crosara, que, na época da fabricação, tinha 20 e poucos anos. “Meu irmão deu a ideia de colocar uma espécie de gatilho para não precisar usar o rastilho com pólvora. Mas não houve tempo para isso”, disse Rugles Crosara. 


De acordo com o chefe da Reserva Técnica do Museu Histórico Nacional, Jorge Cordeiro, a retificação no registro pode ser realizada com a comprovação documental da autoria da peça. “O museu está sempre aberto para estas retificações, porque as nossas pesquisas não são fechadas. Hoje no registro consta na fabricação somente Minas Gerais. O acervo passou por um novo inventário há cerca de quatro anos”, afirmou Cordeiro. 
 
Produtor do canhão “Emílio” nasceu na região de Veneza
Cesário Crosara mudou-se para Uberlândia
em 1925 e faleceu em 1969
 
 
Nome de avenida no bairro Roosevelt, região norte de Uberlândia, Cesário Crosara chegou à região do Triângulo Mineiro em 1894, quando a família adquiriu uma propriedade em Sacramento. Mas antes de chegar ao Brasil e, posteriormente a Uberlândia, Crosara passou a infância e juventude na Itália. Batizado na “Velha Bota”, como Crosara Cesare Giovanni Giacomo, nasceu em 9/12/1869, na cidade de Gambarare, hoje Mira, na província de Veneza. 


A tradição militar também teve início na Itália. O pai de Cesário, Virgilio Giovanni Crosara, resolveu partir para o Brasil com a família diante das dificuldades vividas na Itália no fim do século 19, mas Cesário foi sorteado para o serviço militar obrigatório italiano. O pai retornaria para buscá-lo no fim de 1889. 


No ano seguinte, Cesário Crosara já trabalhava numa fazenda cafeeira perto de Ribeirão Preto (SP), onde rapidamente passou a administrador, por dominar a língua italiana, além de sete dialetos de Veneto, e ter bom conhecimento de francês. Era o perfil ideal para lidar com a leva de imigrantes italianos que chegava aos cafezais paulistas. 


Em meados de 1925, mudou-se para Uberlândia para montar uma oficina mecânica instalada ao lado da E. E. de Uberlândia. Com uma vida marcada por intensa atividade produtiva na fundição de onde saiu o canhão “Emílio”, Cesário Crosara também produzia equipamentos agrícolas, premiados em feiras brasileiras. 



Prestes a completar 100 anos, Cesário Crosara faleceu em Uberlândia no dia 15/9/1969. Todos os registros da família fazem parte do acervo do engenheiro Rugles Crosara. “O papai teve 26 filhos, sendo 14 do primeiro casamento. E 12 do segundo. Hoje somos sete. Ainda tenho uma irmã viva do primeiro casamento dele”, disse Rugles Crosara.

 

REVOLUÇÃO DE 1930

 
 
 
 
 
Em 1930, foi somente época de amarguras e contrariedades. 
Nessa data, ocorreu o primeiro confronto entre as forças militares leais do então
Presidente Washington Luiz e os simpatizantes das idéias reformistas de Getúlio
Vargas, na época, o líder principal da revolução. No confronto, participaram 100
Itumbiarenses. 
O Cel.Sidney Pereira de Almeida apoiava plenamente as idéias de Vargas. Por este
motivo foi preso em 1930, juntamente com seus companheiros Adelino Lopes de
Moura e Carlos Márquez, pelas forças políticas na época comandandas em
Itumbiara por Dr.Luiz de Menezes. O Cel.Sidney Pereira de Almeida e seus
companheiros ficaram presos na Ponte Affonso Pena, onde em suas pilastras
funcionava um calabouço, que nesta época, serviu de cativeiro para os presos
políticos. 
Após muitos dias de agonia, o comandante Senador Camilo Chaves, vindo da
cidade de Uberlândia, executou a ocupação militar de Itumbiara, precisamente em
03 de outubro de 1930, libertando finalmente o tão sofrido povo. 
Com a entrada das Forças Revolucionárias Mineira em Itumbiara, o Cel. Sidney
Pereira de Almeida, foi libertado e em seguida nomeado pelo Comandante Senador
Camilo Chaves, Governador Civil de Itumbiara, cargo este ocupado pelo Coronel por
um período de 20 dias. 
Com esta nomeação o Coronel Sidney, foi a primeira autoridade nomeada em nosso
Estado pela Revolução, no desempenho deste cargo, o Prefeito Cel.Sidney Pereira
de Almeida, cumprindo a missão de que lhe foi incumbido teve que destituir os
Intendentes Municipais, os escrivões não vitalícios, coletores federais e estaduais,
administradores da Recebedoria da Ponte Affonso Pena, nomeando substitutos
provisórios, até que se organizasse a administração Municipal. 
Ainda em julho de 1.932 houve a revolução de 1932, e ainda em no início de 1964,
quando da Revolução de 31 de março era conhecida nacionalmente. 
Calabouço onde eram aprisionados os presos da revolução de 1.930
 
Os prisineiros na época escreviam seus nomes nas paredes do calabolço
 
 

PONTE AFONSO PENA

 
Ponte Affonso Penna – marco da engenharia da época
 
A ponte
A estrutura de ferro foi importada da Alemanha através do porto do Rio de Janeiro. Do Rio para Uberlândia, pegou carona no trem da Cia Mogiana. Para chegar finalmente a seu destino final, Santa Rita do Paranaíba, foi necessária a ajuda de carros de boi.
 
Em 1908 começou a ser construída a ponte pênsil, importante ligação do Triângulo Mineiro com o sul goiano, que permitiu a comunicação do Centro-Oeste com as regiões do sul do país. No então povoado de Santa Rita do Paranaíba, hoje Itumbiara, sua construção atraiu pessoas de vários pontos da região. Em 15 de novembro de 1909 foi inaugurada com grande festejo e recebeu o nome de Ponte Affonso Penna, em homenagem ao Presidente Affonso Augusto Moreira Penna. 
 
 
 
 

A senha, a Revolução e a Ponte

No livro “Bandeirantes e Pioneiros do Brasil”, Tito Teixeira, dono da Companhia Telefônica Teixeirinha, uberabense radicado em Uberlândia, relata sua própria história. Estava ele em Buriti Alegre, Goiás, com a finalidade de reconstruir a rede telefônica que havia sido sabotada. 

No dia 3 de outubro de 1930, durante uma prosa na casa de seu compadre José Marra de Castro, Zeca Totó, onde a maioria não acreditava nos boatos sobre uma revolução no Brasil para depor o presidente Washington Luiz, Tito recebe uma ligação onde a telefonista diz o seguinte: “Dona Candinha manda lhe dizer que a tia do senhor, doente em Belo Horizonte, faleceu hoje às 15 horas”. Tito não se conteve e soltou um “Graças a Deus”, reação que deixou seu amigo espantado. Afinal a tia tinha morrido.

A morte da tia era na verdade uma senha que indicava o início da Revolução de 1930. Tito chamou o amigo de lado e explicou que precisava ir embora o mais rápido possível, pois agora estava em território inimigo e precisava atravessar a ponte Affonso Penna o mais rápido possível e retornar a Uberlândia, onde assumiria o posto de Sub-Comandante das tropas revolucionárias, sob o comando do Capitão José Persilva. No dia seguinte Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul entraram em conflito vitorioso contra o resto do país, o que levou a deposição do presidente Washington Luiz  em favor de Getúlio Vargas.
Foto: Divulgação
Capitão José Persilva, primeiro sentado à esquerda, ao lado do Senador Camilo
 Chaves, em foto tirada com oficiais goianos e mineiros, no término da Revolução
 de 1930.
 
 
 
 
 
Foto: Divulgação
Hospital de Sangue, fronteira de Minas com Goiás, 1930
Para atender os feridos durante as batalhas na fronteira do Triângulo com Goiás, na revolução de 1930 foi montando um hospital de campanha do lado mineiro, perto de Araporã. Chamado de Hospital de Sangue, este local foi montado pelo Capitão José Persilva, que disponibilizou seus carros para servir às tropas.

Localizado próximo à fronteira de Goiás, era utilizado para socorrer os soldados mineiros feridos nos combates da revolução de 1930. Os enfermeiros, com o símbolo da Cruz Vermelha na manga da camisa, ficavam em frente ao hospital aguardando a chegada dos feridos.
 
Enfermeiros do Hospital do Sangue
 
A ponte e o goiano que virou herói uberlandense
 
Foto acervo de Wilson Ribeiro da Silva

Virmondes Ribeiro da Silva - Foto  acervo - de Wilson Ribeiro da Silva

Virmondes Ribeiro da Silva nasceu em Ipameri, Goiás lá pelos anos de 1902. O jovem servia no Sexto Batalhão de Caçadores de Ipameri, quando estourou a revolução de 1924, movimento que defendeu o mandato do presidente mineiro Artur Bernardes contra a insurreição de militares paulistas. Nesta luta, por ato bravura, Virmondes foi promovido a Sargento. Em 1926 casou-se com Genuina Ribeiro e mudou-se para Uberlândia. Um ano depois tiveram um filho, que chamaram de Wilson Ribeiro da Silva.
Foto: Divulgação
Grupamento comandado pelo Sargento Virmondes, próximo à Ponte Affonso Penna
 
Em outubro de 1930, quando estourou a revolução, Virmondes foi chamado para servir nas tropas do Capitão José Persilva e enviado com seu destacamento para defender a Ponte Affonso Penna, cuja localização era estratégica para ambos os lados do conflito.

Em 19 de outubro de 1930, Virmondes colocou a cabeça para fora da trincheira e levou um tiro certeiro na testa disparado, provavelmente, por um conterrâneo goiano. O goiano, que lutava nas tropas mineiras, foi o único mineiro e uberlandense que morreu durante a revolução de 1930.
Foto: Divulgação
Enterro de Virmondes Ribeiro da Silva – 20 de outubro de 1930.
Tito Teixeira escreveu sobre o fato: ...”deixa viúva e na orfandade o filho pequeno, que mais tarde só poderá se orgulhar de tal pai.” Vimondes foi enterrado em Uberlândia, com cortejo fúnebre que mobilizou a população, no dia 20 de outubro de 1930. Por ato do senador Camilo Chaves foi promovido a Tenente Virmondes, e, mais tarde, recebeu homenagem da cidade com seu nome colocado em uma das principais ruas da cidade, que, curiosamente, corta a avenida Afonso Pena, mesmo nome da ponte que defendia em sua última batalha
 
 
 
 
 

Após 1960, com a construção da BR-153, a ponte foi praticamente desativada e, no início da década de 1970 ela foi transferida para outro local, em função da construção da Usina Hidroelétrica de Itumbiara, Furnas, para fazer a ligação da Vila Operária construída na cidade de Itumbiara com o canteiro de obras da usina em Araporã